De: : Carlos Eduardo
Para: Maria Lucia

Data: Segunda-feira, 26 de Outubro de 1998 22:39

 

Lúcia,  

Eu sempre fui uma pessoa interessada no social, em épocas mais "remotas" participei muito de organizações como Sindicatos, Associações de Moradores. Neste projeto da Prefeitura o pouco conhecimento que tenho é que, por acaso tenho uma conhecida que trabalha nele. Pelo que soube é um projeto muito bom, mas que inclusive a Prefeitura sequer divulga esse trabalho como devia.   A única coisa que notei é que a Prefeitura precisaria organizar nas comunidades Cooperativas de Trabalhadores e um serviço de distribuição desses produtos.   Se você quizer conversar sobre isso eu me interesso muito. Você trabalha neste projeto da prefeitura ?  

Carlos Eduardo


De: Carlos Eduardo
Para: Maria Lucia
Data: Sexta-feira, 15 Jan 1999 19:53:05
Assunto: Re: Favela Bairro

Cara Lucia,

Pelo visto essa esse problema está se tornando uma "questão de princípios" para você. Não sei se mora sozinha, se tem filhos ou outros parentes, mas não seria mais cômodo você se mudar ? Eu sei que devemos lutar por nossos direitos, mas como você mesma diz está sofrendo ameaças. Hoje é sexta e daqui a pouco estarei indo embora, mas mantenha contato comigo. Tenho uma amiga que trabalha no projeto Favela-Bairro como Assistente Social e eu pensei que você também tivesse envolvida pelo lado do governo e não como uma cidadã prejudicada. Se você for "crente" tem chance de ser ajudada pelo Governo do Estado agora. Com carinho de sempre,

Carlos Eduardo

PS.: Os Deputados e Senadores dificilmemte respondem a email, normalmente são assessores, que por sua vez fazem filtragem e muitas vezes respondem no lugar do destinatário. Os que são da "direita" pensam em si e no seu comodismo. Os de "esquerda" provavelmente não querem se indispor com os mais "desfavorecidos"... O que acho engraçado é que se uma pessoa tem dinheiro e é rica, não se preocupa onde mora. Tem dinheiro e compra. Se está se incomodando no Leblon vai pra Barra e assim por diante... As pessoas desprovidas de qualquer condição financeira ( estou querendo ser politicamente correto e não chamar de favelado ) invadem qualquer terreno público ou não, seja reserva ou não, constroem casas irregularmente, comercio, a Light põe luz sem o "habite-se", o governo omite-se ou se locupleta e acaba se criando o famoso "bairro popular" e quem mora acaba recebendo as casas graciosamente. Quem paga imposto e tem que trabalhar para se manter, a famosa classe-média ( em suas mais variadas cotas sociais ) acaba pagando duas vezes. Uma para comprar um bem financiado pela "Caixa" e outra para financiar o festival de desmando dos ricos e políticos a quem interessam que saia dinheiro para a desapropiação para fins sociais de áreas particulares e uso de areas publicas. Os terrenos do metrô no Maracanã são um exemplo disso. Pagou-se uma mixaria por eles e hoje é um favelão. Quem assume o ônus politico em retirar os moradores? Hoje tem empresas localizadas nesses terrenos, que nem impostos pagam por não estarem regularizadas nem cumprem outras obrigações.


De: Maria Lucia
Para: Carlos Eduardo
Re: Favela Bairro
Data: Sexta-feira, 15 Jan 1999

Caro Carlos Eduardo,

Agradeço a sua atenção. O Brasil não pode ser mais o país do futuro. Se você procurar em reportagens, a última é: "Projeto autoriza loteamento de áreas em lítigio judicial", publicada no O Globo. É uma afronta ao direito de propriedade. Mas o carioca adora que a sua cidade seja enfeitada, como o Rio Cidade e até o Favela Bairro, por isso não tem noção do que se passa no país.

Passei duas madrugadas enviando minha homepage para todos os senadores, só recebi resposta de um: Roberto Requião.

Seria mais cômodo, mas todo o meu dinheiro está empregado nessa casa. Portanto para sair tenho de vender. E o que consigo agora não compro nada igual. Não sou rica, mas classe média que enfrentou regiões abandonadas pelos governantes, para tentar ter algum imóvel.

Seria mais cômodo, mas não mais digno ou algo que queira chamar.

Seria mais cômodo, como seria há 14 anos atrás comprar um conjugado no Flamengo, bairro aonde fui criada e sempre morei, mas vim para cá procurando uma qualidade de vida perdida no resto da cidade.

Seria mais cômodo.

Mas não me interessa o mais cômodo. Me interessa continuar.

Obviamente que agora já posso respirar pois estou com um bom advogado, e não estou mais fazendo obra. Pretendo até viajar por alguns meses. Aos 55 anos posso me dar a esse luxo. Mas não pretendo desistir. A minha página é gratuita na geocities, e o trabalho me fez bem. Posso lavar minha alma na internet. Sei que sozinha não irei a lugar nenhum. Mas agora não estou mais sozinha. Os moradores do Recreio e de outras regiões nos procuram pedindo apoio. E prá seu governo, tenho irmãos, sobrinhos, tios, tias, mas não tenho filhos ou marido para me refugiar na casa deles como talvez até tivesse feito. Mas não creio. Não sou pessoa que desista fácil de nada. Meus avós, imigrantes franceses e italianos, não desistiram de viver aqui nesse país.

Obrigada pela atenção

Maria Lucia