De: M.L.Massot 
Para: Arquiteto Sergio Magalhães
Enviada em: Terça-feira, 9 de Novembro de 1999 01:50
Assunto: Mentira tem pernas curtas


Senhor Sergio Magalhães,

A respeito de suas declarações no Jornal O Globo, dia 8 de novembro na matéria "Casas do Recreio estariam dentro da lei municipal"  gostaria de lhe lembrar que na homepage Favela Bairro a falência de uma política habitacional se encontra o parecer o  Procurador do Município Dr. Luis Roberto da Matta. Ao contrário de sua afirmação de "Temos 60 unidades num lugar onde o máximo permitido pela lei municipal é 85" está claramente escrito no parágrafo 3 - "oitenta e uma casas".
Abaixo segue o endereço com o documento.

Maria Lucia Massot
arquiteta

http://www.geocities.com/Athens/Crete/6913/denun/parecer2.htm


De: Maria Lucia Massot 
Para: Arquiteto Sergio Magalhães 
Enviada em: Segunda-feira, 8 de Novembro de 1999 12:32
Assunto: A mentira tem pernas curtas


Sr. Sergio Magalhães,

O senhor sabe perfeitamente que a Lei Municipal 2.499/96, aliás inconstitucional, a qual o senhor se refere, aprovou a Favela Canal das Taxas Área de Interesse Social, não cita em qualquer momento a permissão para a construção de casas populares no lote V-7, esbulhado pela Prefeitura e pertencente à Cia Recreio Imobiliária S/A, quanto mais para 85 casas como afirma. Quanto às 60 casas que o senhor disse que construiu, o senhor escamotea a verdade, utilizando o Jornal o Globo para isso. Basta ver as inúmeras publicações da própria secretaria municipal de habitação aonde é dito que seriam contruídas 76 casas para os moradores que seriam removidos. Contando com a conivência da Justiça, que muitas das vezes não aceita a demolição de casas para "carentes", os arquitetos sob seu comando colocaram mais 5, totalizando 81. Qualquer pessoa que saiba contar de 1 a 100 e que não seja cega pode comparecer ao local e verificar.
O senhor também se esquece que inúmeras fotografias e denúncias, inclusive minhas, devidamente protocoladas, mostram a favelização das áreas lindeiras com edificações ilegais e sem licença, e que o número de moradores da favela cadastrados em cerca de 2.350 é  hoje de 6.000, conforme a própria Presidente da Favela D. Sonia Bezerra declarou a esse mesmo jornal O Globo.
Tudo o que foi dito acima encontra-se documentado na minha homepage Favela Bairro a falência de uma política habitacional - http://www.geocities.com/Athens/Crete/6913


Maria Lucia Massot
arquiteta e moradora de uma casa legalizada [prejudicada em frente das casas populares ilegais.


De: Maria Lucia Massot
Para: Sergio Magalhães (Arquiteto)
Assunto: Favela Bairro Canal das Taxas - A mentira tem pernas curtas
Data: Sábado, 26 de Junho de 1999 13:08

Sr. Sergio Magalhães,

O senhor esteve na quinta-feira passada no Recreio para inaugurar a creche, mais um esbulho de um terreno particular, para os moradores das Favelas Canal das Taxas.

Em seu discurso o senhor declarou que nós moradores não queremos pobres na nossa porta e que conseguimos que o BID retirasse o apoio a esse Favela Bairro.

Nada mais me resta a não ser enviar-lhe esse poema.

Maria Lucia Massot

 


A IMPLOSÃO DA MENTIRA
Affonso Romano de Sant'anna

1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente.
que acho que mentem sincerameute.

Mentem, sobretudo, impune/mente
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal, modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade pela mentira
nem à democracia pela ditadura.

2
Evidente/mente a crer nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e, em Auschwitz, havia um circo permanente.

Mentem. Mentem caricatural/mente:
mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavada/mente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
nos seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador
que quer passar gato por lebre.
E na trilha da mentira, a caça
é que caça o caçador com a armadilha.

E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente
mente incivil/mente,
mente tropical/mente
mente incontinente/mente
mente hereditária/mente
mente, mente, mente,
e de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país de mentira
diária/mente.

3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem nova/mente.
Mentem fazendo o Sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu quem mente,
mas o tribunal que o julga herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente pudesse descobrir,
de mentira, um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
vianjando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso

4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que sorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem,
mesmo quando têm um caçador à sua frente
penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca matinalmente
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel silvestremente.
Penso no Sol que morre diariamente
jorrando luz, embora tenha a noite pela frente.

5

Página branca onde escrevo, único espaço
de verdade que me resta, onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo, e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

http://www.geocities.com/Athens/Crete/6913
Favela Bairro, the failure of a housing policy
Favela-Bairro, a falência de uma política habitacional
"É melhor tentar e falhar, que preocupar-se e ver a vida passar.
É melhor tentar ainda em vão, que sentar-se fazendo nada até o final.
Eu prefiro na chuva caminhar, que em dias tristes em casa me esconder.
Prefiro ser feliz,embora louco, que em conformidade viver."

Martin Luther King