From:  William
To: Maria Lucia
Sent: Saturday, August 11, 2001 2:54 PM

Olá, muito prazer em conhecê-la. Sou Cadete da Polícia Militar do Estado de São Paulo, e peço permissão a Sra. para usar dados de seu
site para nosso trabalho de Sociologia ( Urbanização e seus problemas) usando-o da seguinte maneira: Vamos mostrar como as diferentes classes sociais(creio que a Sra, pelo UFIR e pelo ótimo conteúdo do site, é de classe média-alta) brigam por seu espaço. Obrigado e aguardo resposta.

Aluno Oficial PM William Thomaz
São Paulo, 11 de Agosto de 2001


From: Maria Lucia Massot 
To: William 
Sent: Sunday, August 12, 2001 1:23
AM Subject: Re: favela bairro

 

Caro William,

Agradeço haver acessado meu site e obviamente tem todo o direito de utilizar qualquer dado ou documento lá colocado.

Ao contrário do que você supõe não sou classe média alta, mas uma simples classe média, que para fugir do Sistema de Habitação aonde as pessoas adquiriam os seus imóveis, mas que nunca paravam de dever ao órgão financiador, vim para o Recreio dos Bandeirantes, em 1984, então um bairro barato, onde ninguém queria morar, pois além de abandonado pelo Poder Público, não possuía qualquer comércio ou serviços essenciais a uma vida digna.

O Recreio fica a cerca de 40kms do Flamengo, bairro onde sempre morei, típico da classe média, e meus pais apesar de trabalharem desde jovens, jamais conseguiram adquirir um imóvel, criaram os 4 filhos com muita luta.

O meu espaço, como você chama foi conquistado com muita luta e dificuldade, vim sozinha para o Recreio dos Bandeirantes, desempregada, com uma pensão deixada por meu pai, por ser solteira e sem emprego público, de pouco mais de 1.000,00 reais. Isso em 1984.

Convivi com a favela do Terreirão, atualmente Canal das Taxas, que sempre esteve e continua a uma quarteirão de minha casa.

Eu era uma das poucas moradoras com telefone, então muito caro, e jamais neguei a qualquer morador da favela, então pobres, que o utilizassem.

Doei remédios, corri um Natal em busca de brinquedos para as crianças então carentes, enfim vivi a minha vida sem me envolver em brigas ou confusões, quase sem vizinhos.

Hoje me vejo transformada em favelada, o dinheiro que apliquei na construção da minha casa, feita ao longo de 11 anos, foi para o ralo depois do favela bairro. Além de perder a qualidade de vida que havia aqui, hoje tenho um imóvel que ninguém compra, e enquanto isso, os imóveis valorizaram terrivelmente no Recreio, e me vejo obrigada a me mudar para uma casinha numa ilha na Barra da Tijuca, porque não tenho dinheiro para adquirir um terreno e construir uma casa atualmente no Recreio. Estou mantendo minha casa fechada, despendendo cerca de 700,00, tentando vendê-la, o que você pode imaginar como é difícil, meu IPTU é de cerca de 1.000,00.

Enquanto isso as casas da favela que valiam em 1995 quando iniciaram o favela bairro, cerca de 5.000,00 reais, valem hoje mais de 100.000,00, proliferam lojas e comércio, com aluguel de cerca de 1.000,00 reais, mais luvas, exploradas pela classe média, corre uma fábula de dinheiro lá dentro, ninguém paga imposto, e eu sou chamada de eletista.

Você acha que isso é justo ?