Artigos 2005

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ARTIGOS (6ª parte)
 

Artigos 2007 e 2008

 
Tópico 1  O Haiti é aqui
Tópico 2  Cesar Maia mostra a munição
Tópico 3  Conter a Rocinha? Então, tá
Tópico 4 Hipocrisia, não
Tópico 5 Habitação popular: hora da solução
Tópico 6 Dossier Favela-Bairro
Tópico 7 Caos previsível
Tópico8  Mito Urbano
                     
                          Artigos 1996, 1997, 1998, 1999

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Artigos 2005, 2006

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O Haiti é aqui

Folha de São Paulo, 06 de fevereiro de 2007

Plinio Fraga

RIO DE JANEIRO - A miséria humana não só aniquila os sentidos como parece irreversível. A frase de George Packer, jornalista da "New Yorker", faz parte de seu relato aterrador sobre a vida de 15 milhões de pessoas que habitam Lagos, na Nigéria, em artigo publicado na revista "Piauí". "Os visitantes da cidade não são recebidos com as palavras "Bem-vindo a Lagos", e sim com "Isto é Lagos", uma sinistra constatação factual", escreve ele.

Seis milhões e meio de brasileiros vivem em favelas, se aceito como critério o acesso ao saneamento e a precariedade de moradia. O economista André Urani sugere que a qualidade de vida é impossível em cidades com mais de 7 milhões de habitantes. Ou seja, não basta impedir o inchaço, mas seria necessário reduzir o número de habitantes. A pergunta é: como?
O jornalista Howell Raines, ex-diretor de Redação do "New York Times", passou férias no Rio, impressionou-se com o tamanho da favela da Rocinha e perguntou a um brasileiro: "O que vocês pretendem fazer com aquela gente?".

É a pergunta feita muitas vezes ao urbanista Sérgio Magalhães, que conhece mais de 150 favelas cariocas como criador do programa Favela-Bairro, de reformas urbanas. Sua resposta: "Integrar à cidade".

Desde o ano passado, Magalhães começou a trabalhar em Bel Air, um dos bairros mais pobres de Porto Príncipe, no Haiti. As dificuldades são ainda mais gigantescas do que no Brasil. Não se limitam a questões econômicas, já difíceis de solucionar. "Não é que falte água lá. Água não existe", exemplifica.

O urbanista recebeu a sugestão de escrever sobre suas experiências no Rio e em Porto Príncipe em um livro que nasce com o título pronto: "O Haiti e Aqui". Pode chegar a duas constatações: lá é infinitamente pior, mas aqui as coisas ainda podem agravar-se mais.
 

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 Cesar Maia mostra a munição

   
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Xico Vargas


05.02.2007 |  Duas notícias - publicadas com três dias de intervalo - na semana passada devem ser lidas como a primeira resposta do prefeito Cesar Maia ao acúmulo, no governo Sérgio Cabral, de candidatos à sucessão na prefeitura, daqui a dois anos.

Na primeira, num canto de página, registrou-se que a prefeitura começava a firmar convênios com as associações de moradores de um amplo número de favelas, principalmente na Zona Oeste da cidade. Novidade: em todas o tráfico de drogas foi posto para correr pelas milícias formadas por policiais e ex-policiais.

Na segunda, na newsletter batizada de “ex-blog” que distribui para assinantes, o próprio prefeito faz a defesa das milícias, que controlam essas favelas. Sob o título “A evolução política das favelas do Rio de Janeiro!” Maia anuncia trechos de artigo publicado na Latin American Research Review, instituição de pesquisa da Universidade do Texas, para oferecer um painel de registros favoráveis à nova ordem que se instala nas favelas.

Em sua publicação o prefeito, assegura que “os moradores que resistiam ao tráfico de drogas corriam o risco de serem assassinados, enquanto os que colaboravam corriam o risco de retaliação com a invasão de um grupo rival.” Isso é só a descrição de cenário já conhecido do carioca, porque promovido pela crueldade das quadrilhas encasteladas nos morros.

Mas, a seguir, o prefeito destaca trecho que retrata a primeira favela dominada pelas milícias. Diz ele: “A associação de Rio das Pedras faz parte de um número dolorosamente pequeno de exceções a esse respeito. Lá agiram prematura e violentamente para manter o tráfico de drogas fora e mantiveram essa defesa forte nos últimos 20 anos. Ao suprimir a dissidência pela intimidação, a associação de Rio das Pedras assume algumas das características autoritárias das gangues de drogas contra as quais milita, mas pelo menos é menos tirânica, menos violenta e não é inerentemente instável em seu mando.”

A partir daí, Maia oferece variadas conclusões sobre a vantagem de se ter as favelas controladas por milícias como alternativa ao tráfico de drogas. Não menciona que em três favelas recém-tomadas, os novos donos já instalaram o balcão para a venda de drogas. Mas isso é bola que rola. A importância do que publica o no “ex-blog” está em outro significado do texto.

Não é segredo que em Rio das Pedras a votação de Cesar Maia há dois anos – e a entrada da campanha do PFL – deveu-se ao acordo político tecido entre o deputado Rodrigo Maia e o comando da milícia. Não há tampouco mistério sobre a maneira como marcharam os grupos vários de milicianos sobre as favelas da Zona Oeste e hoje dominam 90 delas. Dificilmente existirá uma que não esteja adornada por fotografias e saudações em faixas que reúnem o filho do prefeito e o chefe da milícia local.

Esta é a base do novo eleitorado do prefeito. No início da administração ele lamentou não tê-lo e anunciou que iria em busca. Conseguiu. O que procura, agora, quando se refere às milícias, é aplainar o caminho que aproximará a classe média desse poderoso contingente que toma a cidade. Com isso, como anunciou há dois anos, sacramenta as favelas como prioridade da administração e trabalha para suavizar de certa maneira a imagem das milícias, quando as define como o menor dos males.

Sem pressa, arma sua sucessão e reage à armação do governador para dominar o estado. Ao mesmo tempo que bota abaixo as bases de Garotinho no interior, Cabral nomeou secretários três candidatos a prefeito. Eduardo Paes, Luiz Paulo Conde e, também para agradar o governo Lula, Benedita. Quem ficar em pé será candidato com o apoio do PMDB do Rio.

Antes que algum deles se firme nesse papel – como pode acontecer com Eduardo Paes, no Pan – o prefeito está demarcando território e mostrando que não usa pólvora seca. Tem candidato, sim (o filho, por exemplo) e constrói extraordinário baú de votos.

 

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 Conter a Rocinha? Então, tá.

  
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Xico Vargas

22.01.2007 |  Incontáveis brasileiros (e estrangeiros) ainda hoje recusam-se a crer que em 1969 - ou em qualquer outra data - o homem tenha pisado na Lua. É uma espécie de viagem a que se entregam também defensores da tese segundo a qual John Kennedy é mantido por aparelhos numa base secreta dos Estados Unidos. Poderiam juntar-se (talvez se juntem) aos que confessam ter sido abduzidos por alienígenas e a outros.

Surge agora no Rio de Janeiro o grupo dos que botam fé na construção de um "anel viário", uma pista de rolamento, como essas esburacadas que pontilham a cidade, para conter a expansão horizontal da favela da Rocinha. Logo a Rocinha, que transbordou e destruiu o Parque da Cidade e que, mesmo cercada por cabos de aço ancorados em trilhos, continua descendo sobre as encostas da Gávea.

A Rocinha vai receber R$ 60 milhões para obras de urbanização e saneamento. Deveria receber muito mais. Essa grana não dá conta de oferecer vida digna para as quase duzentas mil pessoas que estão encarapitadas naqueles morros. Sessenta milhões não canalizam todo o esgoto que enlameia as vielas nem acabam com o Valão. A prefeitura, em 12 anos, enterrou seiscentos milhões de dólares no Favela Bairro e o jogou no ralo por falta de manutenção.

Anel viário? Pura bobagem. Conter é verbo que freqüenta o projeto para agradar aos jornais e à classe média, que se enche de brotoejas quando ouve falar em expansão de favelas. Só quem acredita em disco-voador desconhece que a expansão das favelas é responsabilidade da prefeitura que, como temos vistos nos últimos 12 anos, não está propriamente preocupada com o fenômeno.

O projeto é bom no que venha a levar de infra-estrutura para a Rocinha. O resto é confeito de bolo. Pousadas no Laboriaux, no alto da favela? Então, tá. Com ar-condicionado, TV, frigobar e coletes à prova de bala, certamente.

Tirar a favela das páginas policiais dos jornais, como sugere o presidente Lula - cujo partido as freqüentou intensamente nos últimos meses - não depende apenas das pessoas de bem que moram na Rocinha. É iniciativa do Estado, don0 de uma polícia que até há pouco só subia o morro para dar tiros e tomar um dinheirinho.

Obra, urbanização, cidadania tudo isso é bom e o carioca acredita. Conter a expansão é cascata. As favelas continuarão crescendo, porque são parte integrante do metabolismo da cidade. Quem tem dúvidas pode comparar o que era e com o que se transformou a região Metropolitana, hoje uma favela única. Cheia de votos.

 

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Hipocrisia, não

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Xico Vargas

26.02.2007 |  É singular a vocação carioca para invocar surpresa diante de fatos que estiveram o tempo todo ao alcance dos sentidos. Neste verão, ainda que tenha fracassado a degradação das praias por gigogas, a cidade não ficou sem assunto: descobriu as milícias – os grupos paramilitares que expulsam quadrilhas de traficantes de drogas e mudam o mando nas favelas.

Entre aplausos e condenações (poucas, é verdade) a cidade gastou o verão com os olhos postos num fenômeno que ocorre há quase 30 anos em todas as esquinas da Zona Sul, no Centro, nas agências de banco e até nas pastelarias da Tijuca. As lojas pagam, os bares pagam, os edifícios de apartamentos pagam. As agências e revendedoras de automóveis pagam.

Quem serão, se não milicianos, aqueles armários postados pelas calçadas da avenida Nossa Senhora de Copacabana, das ruas Barata Ribeiro e Toneleros? Já os viram? Não é difícil. Usam um coletinho preto, alguns com a palavra “Apoio” às costas. Lembrou? Pois é. Não serão também paramilitares os grupos que guardam ruas internas do Jardim Botânico, do Humaitá, da Gávea ou do Leblon?

A PM esteve na bica de botar abaixo portão e muro construídos pela milícia que tomou uma favela em Cordovil. Felizmente alguém segurou essa bobagem. Salvo pela aparência, em que o portão difere das cancelas operadas por seguranças em ruas da cidade inteira? Experimente o querido leitor cruzar a linha que marca o início do Jardim Pernambuco, no Leblon, sem declinar até o nome do pai.

Se não for pelo uniforme ou pela razão social que diferenças afastam essas milícias das que estão chegando às favelas? Na essência, ambas têm o mesmo DNA. São formadas por policiais, ex-policiais, agentes penitenciários, bombeiros e assemelhados. Díspares são apenas as relações entre protetores e protegidos nas duas áreas em que o poder público permitiu que a cidade fosse dividida. No asfalto, onde quem tem dinheiro fala grosso (cada vez menos) e vira “doutor”, existe o coletinho ou seja lá qual for o uniforme. Na favela, não tem conversa, quem não andar na linha dança.

Na favela a milícia faz as leis no lugar do estado? E quem as faz nas portas dos bancos, onde meia dúzia de idiotas obriga pessoas a tirarem a roupa para provar que não portam armas? Ganha um doce quem visitar a rua Leblon, quarteirão da praia, estacionar fora da marca exata determinada pelo segurança e sair de lá sem ter aprendido quem manda no pedaço.

E já que falamos em estacionar, o prezado tem por hábito freqüentar bares, restaurantes, boates? Entrega as chaves do carrinho para o gentil manobrista de um desses “Valets”, que se multiplicaram pela cidade? Na saída paga as 8 pratas (arredonda para 10?) e recebe o possante incólume? E como acha que aconteceu isso, numa cidade onde se roubam quase 100 mil automóveis por ano? Parabéns, você é cliente de mais uma rendosa atividade miliciana, igualmente gerida por policiais.

Seria esse um fenômeno carioca? Nem por sonhos. O país inteiro está tomado por milícias. Desde empresas de segurança privada até ajuntamentos, como os grupos que se organizam para tomar e controlar favelas, temos mais de 1 milhão de homens com armas nas mãos. Ib Teixeira, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, no início do ano 2000 estimava esse número em 1,4 milhão.

Para uma breve idéia, o sítio do Exército Brasileiro contabiliza seu efetivo em 200 mil homens e cinco mil mulheres lotados em 661 estabelecimentos militares no país inteiro. Mesmo acrescentando-se os contingentes da Marinha e da Aeronáutica o número não bate em 500 mil – um terço das atuais forças paramilitares.

E quem é o dono dessa encrenca? Os policiais e congêneres que se agruparam nas mais diversas modalidades de milícia ou o estado que lhes deu arma, carteirinha e apontou o caminho no qual se ganha mais e morre menos combatendo o crime fora do expediente? Mudar o curso da história agora vai ser difícil. Só não vale achar que milícia é novidade deste verão. Aí é hipocrisia.

 

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Habitação popular: hora da solução

Jornal O Globo, Coluna ADEMI, 04/mar/07

    Márcio Fortes*

    Após a posse dos novos governantes, o período de férias e a apresentação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), estamos em um verdadeiro recomeço. É notável a solidez do mercado imobiliário, sua capitalização e capacidade de bem produzir. Está, portanto, na hora de olhar de frente e solucionar o principal problema urbano brasileiro: o favelamento, por seus aspectos urbanísticos e humanitários.

     O mercado imobiliário é um só. Não há mercado real que só atinja uma parte dos cidadãos de certa faixa de rendimentos. O mercado perfeito oferece a qualquer pessoa a possibilidade de encontrar a habitação que caiba nas suas finanças e atenda a suas expectativas sociais. É o que queremos, precisamos. E para alcançar este objetivo as empresas estão preparadas.

     Vários países do mundo encontraram uma solução. O México, hoje, constrói quase um milhão de habitações com subsídios públicos para erradicar a habitação sub-humana e sub-normal. Aliás, a maioria dos países da América Latina tem projetos de habitação popular consistentes e em desenvolvimento. Assim também ocorre em países da Ásia, da África e até nos mais desenvolvidos.

     Não faz sentido estarmos construindo no Brasil apenas cerca de 35 mil habitações populares com subsídios públicos e não haver qualquer projeto sustentável que atenda em massa a esta necessidade fundamental e urgente para a dignidade da população. Que traria até a otimização dos recursos aplicados na saúde pública, na educação, na segurança e outros itens.

     Sabemos que não se trata apenas de construir. O transporte coletivo, a infra-estrutura, a adequação sociológica das habitações precisam ser atendidos, tanto quanto os fatores mercadológicos. Mas, este é o desafio que, no caso particular do Rio de Janeiro, apresenta-se reduzido, dada a disponibilidade de terrenos no município já urbanizados sob domínio do poder público.

     Os associados da ADEMI estão prontos a participar de um projeto com esses objetivos, com a magnitude e abrangência necessárias. É o momento. Para tal, só é preciso o planejamento global, que depende de fatores como as finanças públicas e os vários instrumentos de regulação das atividades concedidas - como transportes, saneamento etc - para seu deslanche definitivo.

*Márcio Fortes é presidente da ADEMI-RJ e FIABCI - Regional Rio.

 

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Dossier Favela Bairro

Dossie Favela-Bairro

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Caos previsível

Jornal O globo, Opinião, 25 de outubro de 2007

           Uma cidade que Se esgueira entre o mar e a montanha esse espalha nas franjas da Floresta da Tijuca sobre os rios assoreados ou mal canalizados, o Rio, com 6 milhões de habitantes, constitui-se um desafio constante ao administrador público — desafio não superado com grande freqüência. O dia do caos enfrentado ontem pelo carioca, per causa do deslizamento de terra sobre a pista Norte-Sul do Túnel Rebouças, agravado pela. Chuva. resulta, na essência de graves erros cometidos ao longo dos anos pelo poder público.

           Visto pelo ângulo oficial, a culpa recai sobre a topografia da cidade. Com muitos morros, vias estratégicas para o trânsito passam por vários túneis. Não bastassem os riscos de desmoronamento, algumas dessas estradas urbanas são Iigações essenciais, senão físicas, entre bairros e regiões.

           Caso do Rebouças, elo-chave entre a Zona Sul e a Zona Norte. Sua interrupção sobrecarregou outro túnel, o Santa Bárbara. vias expressas (Linhas Amarela e Vermelha) e a Centro da cidade. Com a chuva e as falhas em sinais do trânsito, completou-se a receita do caos.

           O despreparo da prefeitura para enfrentar a situação ficou evidente do várias formas. Uma delas é o fato de o deslizamento sobre o túnel ter começado no fim da tarde de terça­feira, o  Rebouças ter sido fechado às dez da noite _ uma hora antes do normal para manutenção e o carioca constatar, na manhã de quarta, a inexistência de um plano mínimo de emergência para tornar o transito menos engarrafado. Foi possível passar urna hora e meia arrastando-se na chuva, pára-choque com pára-choque, e encontrar no trajeto apenas um passivo guarda municipal de trânsito.

           Impossível não estabelecer alguma relação entre a ocupação desordenada das encostas par favelas e a quarta-feira em que o Rio parou. Ontem, circulou entre técnicos da prefeitura a denúncia de que uma ligação clandestina de água na favela do Cerro Corá teria começado a desestabilizar a terreno sobre a entrada do túnel.

          Mesmo que a hipótese seja afastada, é indiscutível que favela é um risco para todos, incluindo seus moradores. Nas ocupações sobre vias, a perigo aumenta. Ao ser leniente com a favelização, causa de desmatamento e degradação ambiental, o poder público se torna responsável por problemas como este no Rebouças e coloca em risco favelados e não-favelados.

          A conformação do Rio exige cuidados especiais da administração municipal. Como eles não existem, acidentes ocorrem e as autoridades pedem para a população ficar em casa. Ruas vazias ajudam a prefeitura, mas infernizam a vida de quem vota e paga impostos.

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Mito Urbano

Jornal O Globo, Opinião, 25 de agosto de 2008

CÁRLA RODRIGUES

Durante muitos anos, como repórter, ouvi explicações de especialistas sobre o fenômeno das favelas cariocas, tema sobre o qual há Incontáveis estudos. Uma das pesquisas que noticiei dava conta de um alto percentual de residências próprias nas áreas pobres da cidade, enquanto, nas áreas mais ricas, subia a percentagem de casas alugadas, O fenômeno se explicava por que a classe média assalariada paga aluguéis em apartamentos da Zona Sul, enquanto as camadas mais pobres moram em barracos construídos e “próprios”, ainda que sem título de propriedade ou escritura definitiva.

Outro desses especialistas afirmava que havia, entre os pobres, a necessidade de ir construindo sua casa aos poucos, conseqüência da falta de financiamento imobiliário, mas também um dado cultural: o crescimento da família permitiria a expansão da residência — o famoso puxadinho — para abrigar a formação de novos núcleos familiares, decorrência do casamento dos filhos.

É à luz desses dois estudos que reflito sobre a expansão vertical das favelas, um fenômeno em toda a cidade, mas que observo de um ponto de vista privilegiado na vizinhança, já que moro em um condomínio espremido entre as favelas da Tijuquinha, Muzema e Rio das Pedras. São três comunidades que crescem espantosamente para o alto, com a construção de edifícios de apartamentos com varanda e sem elevador, único fator que ainda limita o gabarito dos prédios a cinco andares. As placas de vendem-se e alugam-se se multiplicam. Em Rio das Pedras, o grau de expansão do mercado imobiliário é tão alto que existem casas antigas sendo derrubadas para a construção de novos prédios, exatamente como acontece nas áreas mais valorizadas da Zona Sul carioca.

Essa nova tendência derruba não penas casas velhas, mas também esses dois mitos que explicam as favelas. Os apartamentos ou devem ser comprados à vista — um conjugado custa entre 25 mil e 30 mil reais — ou serão alugados. Os que pagarem cash não estarão se valendo de nenhum financiamento imobiliário, mas poderão vir a engordar as estatísticas de proprietários de imóveis. Os que alugarem vão contribuir para a mudança no perfil dos moradores de favelas. Ambos, donos e locatários, estarão impedidos de ampliar seus imóveis em “puxadinhos” pa ra abrigar a expansão de suas famílias.

A solução “imobiliária” está dada pelo mercado informal, sobretudo em áreas livres do tráfico de drogas (num rios prédios em construção em Rio rias Pedras há uma placa anunciando qualidade de vida”). Se é para morar em apartamentos que nem são financiados nem expansíveis, o que ainda explica a opção pela favela? Ou, dito de modo ainda mais inquietante, o que ainda justifica a falta de opção pa ra fora da favela?

CARLA RODRIGUES é jornalista.

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